Se eu tivesse 20 anos, provavelmente minhas férias seriam em outra voltagem, com direito ao agito costumeiro do destino escolhido. Depois dos 30 anos, a eletricidade é outra. Não digo maior, nem menor, mas equilibrada. Durante esses dez dias em Ilhéus, descobri que venho buscando algo um pouco além do que está no raso e que transforme definitivamente a minha vida - daqui até o fim dos meus dias.Além de tomar muito sol, aproveitei para praticar jardinagem e o delicioso estado de contemplação - do tempo, da amizade, do balanço das folhas do coqueiro que beiram a piscina, das pessoas, da cidade, das páginas do livro, do andar de bicicleta, do mar. Não coloquei meu ritmo acelerado em nada, apenas me deixei levar pela simples forma de viver do povo da Bahia, que em Ilhéus vive cercado do encontro do oceano com o rio. Conheci pessoas de jeito muito próprio, que não buscam os recursos que estão disponíveis aos paulistanos para fugir de algo que podemos chamar de marasmo ou mesmo de solidão - mesmo porque aqui não tem. Isso me fez pensar na forma como o tempo, em uma cidade chamada São Paulo, massacra os seus filhos de ventre e adotivos. Na cidade grande, não há espaço para ficar só, mesmo porque não conseguimos ficar por muito tempo sem contato - existe uma dor muito íntima que nos impede de alcançarmos essa parte do processo de autoconhecimento.
Aqui, não. Você, quando sabe que vai voltar em breve para o dia-a-dia corrido, consegue ganhar fôlego necessário para rever alguma coisa que pensava ser urgente e retoma aquele estado mental mais sinuoso, o qual ajuda um monte o coração a seguir em frente sem enfartar ou endurecer ainda mais. Algo bem parecido com o bolo de chocolate que a mãe costumava fazer numa sexta-feira no final da tarde, que significava simplesmente conforto.
Esse período foi impagável para me fazer lembrar que as primeiras opções estarão sempre relacionadas às coisas mais simples - desde o exercício para o corpo, a comida, a bebida, o sexo, o conhecimento, até o trabalho, entre vários temas - e o que eu quero entre todas as coisas relacionadas ao amor, estava contrário ao meu discurso há muito tempo.
As pessoas precisam do tempo, mesmo quando ele pesa um pouco mais.
As pessoas precisam de tempo para não fazer nada.
As pessoas precisam do tempo para curtirem as coisas que as tornaram felizes na infância.
As pessoas precisam do tempo para presenciar a luz cor de prata da lua que banha as águas do mar em uma noite fresca de inverno na Bahia.
As pessoas precisam de tempo para ouvirem outras vozes - aquelas que não permitimos abrirem suas enormes bocas numa cidade como São Paulo.

6 comentários:
Amei o seu Post. Nós paulistanos somos viciados em "não termos tempo". Certa vez durante as férias no litoral fui comprar sei lá o que e a fila do caixa estava enorme e todo mundo começou a reclamar da demora. A caixa simplesmente soltou a máxima: Olha, vocês não estão em São Paulo e este é o meu ritmo de trabalho e ponto final. Nem preciso dizer que todo mundo calou a boca né.
Adoro a minha vida corrida de Dona de Casa, Esposa, Mãe, Filha, Irmã (risos), mas confesso que as vezes me dá vontade de ter pelo menos um dia de solidão para colocar as idéias em ordem, fumar sem pressa, comer idem ... enfim, sair um pouco dessa correria insana.
Pena que você voltou justo no meio da friaca! Amiga, a coisa tá de lascar viu!
Beijos!
Sah
É isso, querida, sou testemunha disso de perto. E está tudo certo, pois você passou por aqui para viver seu intervalo, hiato necessário para certos reajustes que berram intensos em nossa alma.
Agora é retomar teu sopro de vida, crendo mais veemente nas consequências da renovação.
Sinto-me feliz por ter te conhecido, sobretudo num ambiente iluminado que foi o Labiata de Lenine.
Beijos e beijos!
Foi ótimo ter compartilhado um pouco desse seu tempo, nosso tempo.
Volte sempre, querida,
Beijos.
Ah, pra variar tem mais premio pra vc no Coisas ... ta no post de sexta passada!
Beijos!
Sah
Onde está a Regiane?
Você devolve? hehehehehe =D
A Gi retornou no ritmo baiano...
Nao faz nada, nao liga para ninguem e nao atualiza isso aqui...
Já tou ate com saudades de mostrar para a Sah que ela nao tem razão do que pensa sobre os homens...
Daqui uns dias a Gi volta a escrever, viche meu rei!
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